Escala 6 x 1: Estamos discutindo a coisa errada - RH Estratégico Consultoria

Escala 6 x 1: Estamos discutindo a coisa errada

Conflito de interesses
Conflito de interesses: sua empresa sabe como definir o limite?
16 de fevereiro de 2026

Escala 6 x 1: Estamos discutindo a coisa errada

Escala 6 x 1 - Estamos discutindo a coisa errada

Escala 6 x 1 - Estamos discutindo a coisa errada

O que é, afinal, a escala 6×1?

A escala 6×1 é um arranjo permitido pela Constituição brasileira: até 44 horas semanais, com um dia de descanso remunerado.

Não se trata de uma figura jurídica autônoma, mas de uma forma de distribuir a jornada em atividades que funcionam de maneira contínua, como comércio, serviços, indústria e saúde.

Desde que respeitados os limites constitucionais de jornada e descanso, trata-se simplesmente de uma das possíveis formas de organização do tempo de trabalho.

O que está sendo proposto no Congresso

O debate atual sobre o fim da escala 6×1 se desenvolve por três caminhos distintos.

A PEC 148/2015, em tramitação no Senado, propõe reduzir a jornada máxima para 36 horas semanais, garantindo dois dias de descanso e, na prática, eliminando o modelo 6×1.

Na Câmara dos Deputados, a PEC 8/2025 propõe a chamada semana de quatro dias (4×3), também com jornada semanal de 36 horas.

Paralelamente, o Governo Federal anunciou o envio de um projeto de lei com urgência constitucional com o mesmo objetivo.

O tema, portanto, deixou de ser apenas uma discussão setorial e passou a ocupar o terreno da engenharia constitucional das relações de trabalho.

Produtividade: o verdadeiro problema brasileiro

Quando se introduz a variável da produtividade no debate, a discussão ganha outra dimensão.

Segundo dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT), o Brasil ocupa a 94ª posição entre 184 países em produtividade do trabalho. A economia brasileira gera cerca de US$ 21,2 por hora trabalhada, número significativamente inferior ao observado em economias avançadas. Nos Estados Unidos, por exemplo, a produtividade ultrapassa US$ 80 por hora, enquanto no Japão supera US$ 50.

Em outras palavras, o país trabalha muitas horas ao longo do ano, mas produz relativamente pouco por hora.

Esse quadro aponta para um problema estrutural ligado a fatores como gestão, tecnologia, qualificação profissional e organização do trabalho e não, necessariamente, à quantidade de dias trabalhados.

Quem administra empresas ou operações no Brasil conhece bem essa realidade. O desafio cotidiano raramente é “quantos dias trabalhar”, mas como produzir melhor com as condições concretas de gestão, tecnologia e qualificação disponíveis.

É justamente nesse ponto que a discussão sobre jornada muitas vezes se distancia da realidade das empresas e dos próprios trabalhadores.

O que o mundo faz

Quando se observa a experiência internacional, o padrão institucional é relativamente claro.

A legislação costuma estabelecer limites máximos de jornada e períodos mínimos de descanso, criando uma moldura jurídica básica. A organização concreta das escalas 5×2, 6×1, 4×3 ou 12×36 costuma ser definida por negociação coletiva, levando em consideração as características de cada setor.

Na União Europeia, por exemplo, a Diretiva 2003/88 estabelece um limite médio de 48 horas semanais, além de períodos mínimos de descanso diário e semanal. A definição de turnos e escalas é normalmente objeto de acordos coletivos.

França, Alemanha, Espanha e Japão seguem lógica semelhante: a lei estabelece os limites gerais, enquanto a negociação coletiva organiza os arranjos concretos de jornada.

Poucos países tentam constitucionalizar um único modelo de escala, justamente porque isso tende a reduzir a capacidade de adaptação da economia às especificidades de cada atividade.

E o Brasil?

No caso brasileiro, a própria Constituição já estabelece os pilares fundamentais do sistema.

Ela fixa o limite de 44 horas semanais, garante o repouso semanal remunerado e reconhece explicitamente acordos e convenções coletivas de trabalho.

Em outras palavras, o ordenamento jurídico já oferece instrumentos suficientes para que diferentes setores organizem suas jornadas de forma compatível com suas realidades produtivas.

O desafio talvez não esteja em criar novas regras constitucionais, mas em utilizar com mais intensidade os instrumentos já disponíveis, especialmente a negociação coletiva.

O risco de um modelo único

Impor um único modelo de jornada para um país continental como o Brasil, marcado por profundas diferenças regionais e por uma estrutura empresarial fortemente composta por pequenas e médias empresas, pode gerar distorções relevantes.

Dependendo do setor, isso pode significar aumento de custos operacionais, perda de competitividade e expansão da informalidade.

Uma experiência prática

Ao longo de mais de três décadas conduzindo negociações coletivas em cinco empresas diferentes, esse tema sempre apareceu como objeto de negociação direta entre empresas e trabalhadores.

Em atividades com exigências muito distintas, como operações ininterruptas, jornadas ampliadas de atendimento ou funcionamento contínuo ao longo da semana, foram construídos diferentes modelos de escala, na maior parte fazendo ajustes através de negociação com os sindicatos representativos dos trabalhadores.

Em muitos casos, comissões representativas de empregados participaram diretamente da formulação dessas soluções.

Na prática, a experiência mostra que a negociação coletiva frequentemente encontra caminhos equilibrados entre as necessidades produtivas das empresas e as expectativas dos trabalhadores.

O ponto central

O Brasil não precisa necessariamente constitucionalizar o fim da escala 6×1.

O país precisa enfrentar seu verdadeiro desafio estrutural: a baixa produtividade do trabalho.

E esse problema dificilmente será resolvido apenas pela alteração do modelo de jornada. Ele passa por gestão, tecnologia, qualificação profissional e organização do trabalho. Havendo a melhoria da produtividade, a duração da jornada terá maior espaço para discussão e adequação.

A discussão sobre jornada é legítima. Mas transformar a Constituição em um manual detalhado de escalas pode não ser a resposta mais eficiente.

Para avançar de verdade

Talvez o debate precise deslocar o foco para outras perguntas:

  • Como aumentar a produtividade por hora trabalhada?
  • Como reduzir adoecimento e absenteísmo?
  • Como utilizar tecnologia para reorganizar o trabalho?
  • Como fortalecer a negociação coletiva para soluções setoriais?

É assim que operam as economias mais produtivas do mundo.

E é esse o debate que o Brasil ainda precisa avançar.

Para reflexão

Se o principal problema do mercado de trabalho brasileiro é produtividade, e não necessariamente o modelo de escala, a pergunta final é inevitável: faz sentido constitucionalizar um único formato de jornada para todos os setores da economia? Ou seria mais eficiente fortalecer a negociação coletiva para que cada atividade construa sua própria solução, inclusive com a discussão da produtividade?