Nos últimos anos, o cenário trabalhista passou por transformações drásticas, impulsionadas por eventos como a pandemia e as subsequentes demissões em massa. Em meio a esse contexto, muitas empresas têm adotado uma estratégia conhecida como ostracismo forçado.
Essa abordagem, embora sutil, representa um desafio significativo para os funcionários e pode ter consequências profundas para a saúde mental e o clima organizacional. Quer saber mais sobre este tema? Continue a leitura e entenda!
O ostracismo forçado refere-se à prática em que empresas realocam funcionários, frequentemente em cargos intermediários, para funções que não correspondem às suas habilidades ou interesses, ou o que foi previamente acordado com o profissional.
A intenção é criar um ambiente de trabalho desconfortável, levando o funcionário a pedir demissão por conta própria, ao invés de proceder com uma demissão formal.
Essa tática permite que a empresa evite custos com indenizações e complicações legais associadas a demissões tradicionais.
Os profissionais mais vulneráveis a essa prática são aqueles que, embora recebam salários acima da média, não têm responsabilidades diretas sobre a gestão de equipes.
Eles se tornam alvos fáceis, sendo frequentemente movidos para áreas distantes de suas competências, o que pode gerar frustração e estresse. O que se observa é uma pressão passiva-agressiva, onde a mensagem implícita é clara: “ou você se conforma com a nova situação, ou você sairá”.
O uso dessa tática pelas empresas apresenta diversos perigos. Em primeiro lugar, ela impacta negativamente a saúde mental dos funcionários.
Estudos mostram que ambientes de trabalho hostis e desconfortáveis podem levar a altos níveis de estresse, ansiedade e depressão.
Funcionários que se sentem desvalorizados ou isolados tendem a sofrer de queda na autoestima, o que pode afetar sua produtividade e, consequentemente, o desempenho da empresa.
Além disso, essa prática contribui para a erosão da confiança entre os funcionários e a liderança. Quando os colaboradores percebem que suas trajetórias profissionais podem ser manipuladas para forçá-los a sair, isso cria um clima de desconfiança e insegurança.
A transparência nas relações de trabalho é fundamental para um ambiente saudável e colaborativo; quando essa transparência é comprometida, a cultura organizacional pode se deteriorar rapidamente.
Outro risco é a possível fuga de talentos e rotatividade de pessoal. Funcionários que se sentem empurrados para fora da empresa podem levar consigo habilidades valiosas e conhecimentos acumulados, o que representa uma perda significativa para a organização.
Essa rotatividade não intencional pode prejudicar projetos em andamento e desestabilizar equipes que dependem da experiência de seus membros.
Para evitar a adoção do ostracismo forçado, as empresas podem implementar diversas estratégias que promovam um ambiente de trabalho saudável e respeitoso, como, por exemplo:
Estabelecer canais de comunicação transparentes é fundamental. Incentivar os funcionários a expressarem suas preocupações e sugestões ajuda a construir um clima de confiança. Realizar reuniões regulares de feedback e permitir que os colaboradores falem sobre suas experiências pode ajudar a identificar problemas antes que se tornem graves.
Os líderes desempenham um papel crucial na cultura organizacional. Investir em treinamento para gerentes sobre como liderar equipes de forma inclusiva e empática pode reduzir a probabilidade de práticas prejudiciais. Isso inclui reconhecer o valor de cada funcionário e tratar todos com respeito.
Para essa abordagem, um RH estratégico e presente no dia a dia da empresa é fundamental. Se você tem interesse em saber mais sobre o assunto, conheça o livro Insights de RH Estratégico:
Implementar sistemas de avaliação de desempenho que se concentrem no desenvolvimento pessoal e profissional, em vez de apenas nos resultados, pode ajudar a evitar a desmotivação. O feedback deve ser equilibrado e focar tanto em pontos fortes quanto em áreas de melhoria.
Criar um ambiente onde os funcionários possam crescer e se desenvolver é essencial. Oferecer treinamentos, workshops e oportunidades de avanço na carreira ajuda a manter os colaboradores engajados e motivados, reduzindo a sensação de estagnação que pode levar ao ostracismo.
Além de todos esses tópicos abordados, o código de ética da empresa é muito importante para manter uma relação profissional e saudável com os colaboradores. Para criar este documento tão importante, conheça o e-book Código de Ética e tenha acesso à base legal e principais tópicos que o mesmo deve abordar.
Diante da realidade do ostracismo forçado, os funcionários devem adotar uma postura proativa, como:
É essencial que os funcionários reflitam sobre suas habilidades e objetivos profissionais. Entender o que se deseja para a carreira pode ajudar a tomar decisões mais informadas, mesmo em situações de pressão.
Manter um diálogo claro e honesto com a liderança é fundamental. Se um funcionário se sentir sobrecarregado ou insatisfeito com uma nova função, é importante comunicar isso de forma construtiva. Muitas vezes, os líderes podem não ter consciência do impacto que suas decisões têm sobre os funcionários.
Investir em formação e desenvolvimento de habilidades pode não apenas aumentar a confiança do funcionário, mas também torná-lo mais valioso em outras áreas da empresa ou em novas oportunidades de trabalho.
O ostracismo forçado não é apenas uma tática corporativa; é uma questão que reflete a evolução das relações de trabalho em um mundo cada vez mais competitivo. À medida que as empresas buscam formas inovadoras de gerenciar suas forças de trabalho e cortar custos, os impactos sobre a saúde mental e a cultura organizacional não podem ser ignorados.
Além disso, com a crescente conscientização sobre saúde mental e bem-estar no trabalho, práticas que desconsideram o valor humano dos funcionários estão se tornando cada vez mais insustentáveis.
Organizações que priorizam o bem-estar de seus colaboradores tendem a ter melhor desempenho a longo prazo, atraindo e retendo talentos.
Como vimos ao longo do artigo, o ostracismo forçado é uma estratégia que pode parecer atraente para empresas que buscam cortar custos, mas os efeitos negativos dessa prática podem ser profundos e duradouros.
Funcionários que se sentem pressionados a sair ou desvalorizados em suas funções enfrentam um ambiente de trabalho tóxico que pode impactar sua saúde mental e sua carreira.
Por isso, é fundamental que tanto as empresas quanto os funcionários reflitam sobre as consequências dessas práticas. Um ambiente de trabalho saudável e transparente não é apenas benéfico para os colaboradores; é também uma estratégia inteligente para garantir a sustentabilidade e o sucesso da organização a longo prazo.
Alfredo Bottone é Matemático, Advogado, Professor em MBA de Governança Corporativa, Consultor de RH Estratégico, Ética Empresarial, Relações Trabalhistas e em Desenvolvimento de Lideranças e de Profissionais de RH. É Ph.D., Philosophy in Business Administration (USA). É autor do livro “Insights de um RH Estratégico”, “Os desafios legais e de gestão do teletrabalho, home office e regime híbrido”, além de e-books e artigos na área trabalhista, gestão de pessoas e governança corporativa. É membro da Board Academy no Brasil e associado do SHRM (Society for Human Resources Management) nos Estados Unidos.